quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Homenagem ao Nahud 1 - Era Uma Vez No Western

Quando eu era garoto, passava muito tempo nas sessões coruja dos canais de tevê. Lembro-me com clareza quando assisti numa sala de cinema a Mais Forte Que a Vingança/Jeremiah Johnson (1972), de Sydney Pollack, alguns anos depois do seu lançamento. Desde os créditos de abertura fiquei hipnotizado. A imensidão branca das montanhas nevadas, a solidão do herói, a intensidade selvagem. Tudo o que eu queria ser quando crescer estava no Jeremiah Johnson de Robert Redford. Ao longo dos anos revi esse clássico várias vezes e a qualidade alucinatória das suas imagens nunca perdeu sua força sobre mim. Ele fez crescer a minha paixão pelos filmes, virou vocação. Mas minha paixão já era abusada desde criança, eu não simpatizava com John Wayne e os spaghetti-westerns, deixando meu pai descontente. Fanático por faroestes, ele felizmente também admirava Gary Cooper e fitas irreverentes como A Face Oculta/One-Eyed Jacks (1961). Pouco a pouco explorei os princípios básicos do WESTERN. Os mais antigos embelezam a realidade para torná-la mais “interessante”, transformando sanguinários em heróis, como o General Custer, por exemplo. Mas a partir dos anos 50 vários filmes começaram a questionar os mitos perpetuados por Hollywood. O herói tornou-se mais rico e mais complexo, dando margem a elaborados dramas psicológicos que falam de cobiça, vingança e violência sádica. 

Claire Trevor e John Wayne em
"No Tempo das Diligências"
O primeiríssimo faroeste da história do cinema foi produzido em 1903 por Thomas Alva Edison, da Edison Manufacturing Company. Considerado o fundador do gênero, embora alguns curtas-metragens tenham apresentado anteriormente elementos do WESTERNO Grande Roubo do Trem/The Great Train Robbery, do pioneiro Edwin S. Porter, desenvolveu o estilo que muitos diretores iriam copiar. Um dos seus marcos é uma cena em que o vilão (interpretado por George Barnes) olha para o espectador, aponta sua arma e atira “diretamente” no público. Foi um choque, muita gente saía correndo da sala de exibição, em pânico. A história fala de um bando de vilões que consegue parar um trem, faz com que todos os passageiros saiam da locomotiva e após o assalto, partem à  cavalo. Em 1923, a Paramount lançou Os Bandeirantes/The Covered Wagon, de James Cruz, lembrado como o primeiro épico da história do western. Narra a longa e sofrida viagem dos conquistadores em direção ao oeste selvagem norte-americano. No elenco, J. Warren Kerrigan, Lois Wilson e Ernest Torrence. Na equipe técnica, dois futuros (e bons) diretores: Dorothy Arzner na edição e Delmer Daves na cenografia.

John Ford
Figura maior do WESTERN, o fabuloso John Ford dirigiu em 1924 O Cavalo de Ferro/The Iron Horse, obra que fala da construção da primeira ferrovia transcontinental, protagonizada por George O’Brien e Madge Bellamy. Em 1939, o diretor lançou uma de suas obras-primas, No Tempo das Diligências/Stagecoach (abaixo), dando status artístico ao gênero e o estrelato a John Wayne, que faria outros filmes com ele, tornando-se amigos e compartilhando as mesmas convicções conservadoras de extrema direita. Ford adorava filmar a imensidão árida e rústica do Monument Valley, no deserto do Arizona. Seus clássicos incluem Paixão dos Fortes/My Darling Clementine (1946), Rastros de Ódio/The Searchers (1956) e O Homem que Matou o Facínora/The Man Who Shot Liberty Valance (1962). No entender do crítico Andrew Sarris, uma das principais marcas do cinema de John Ford é a simplicidade, aliada a uma sensível economia de expressão, que contribui muito para embelezar seu estilo: 

“Ford nunca se preocupou em fazer artificiais cenas de efeito, com planos ousados ou arriscados. Era um excelente contador de histórias e apenas pretendia que o conteúdo de seus filmes falasse por si mesmo”

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Conservador, anticomunista e militarista, o diretor nunca deixou que seus posicionamentos políticos comprometessem a qualidade artística de sua imensa obra, que se destaca pelo senso de humor, harmonia visual, folclore do interior norte-americano e irlandês, humanismo, religião e sentimentalismo.

James Stewart
Nos primeiros faroestes, os índios norte-americanos eram retratados como inimigos ferozes dos conquistadores brancos. Nas décadas seguintes, os maus-tratos e a chacina destes índios foram reconhecidos em filmes como Flechas de Fogo/Broken Arrow (1950), O Caminho do Diabo/Devil’s Doorway (1950), Apache/idem (1954), Crepúsculo de uma Raça/Cheyenne Autumn (1964), O Pequeno Grande Homem/Little Big Man (1970) e, mais recentemente, Dança com Lobos/Dances with Wolves (1990). São longas corajosamente favoráveis à causa indígena, denunciando a injustiça social e o preconceito, numa exposição crítica sem subterfúgios. Na época inicial deste reajuste de contas, nos primeiros anos dos 50, surgiu a revitalização do faroeste através de Anthony Mann, marcada pela intensidade psicológica dos personagens e sensibilidade visual. Ele sacudiu o gênero nos cinco filmes que fez com o seu amigo de longas datas, James Stewart, girando quase sempre em torno da vingança, com o herói dominado por um destino trágico que o leva a exterminar seu inimigo e, uma vez finalizada a tarefa macabra, apenas saborear um gosto amargo na boca. Não estamos diante de um homem bom, no estilo dos cowboys tradicionais, mas de um ser complexo que se debate entre converter-se em um pistoleiro ou um fazendeiro, entre infligir a lei ou respeitá-la, vivendo no fio da navalha.  Ambíguo e atormentado, teimoso e infeliz, o mocinho manniano une palavra e ação, e para tal fim se entrega de corpo e alma. Tendo deixado sua marca única também no criminal noir e no épico, Anthony Mann é um dos maiores diretores de faroestes de todos os tempos, inovando desde o seu primeiro – e excelente – O Caminho do Diabo, com Robert TaylorSegundo ele, 

“O faroeste goza de tanta popularidade porque nele um homem diz: vou fazer algo, e o faz. Todos queremos ser heróis. Este é o drama. É o que o cinema se encarrega de realizar esse sonho”.

Anthony Mann
Mestres noutros gêneros arriscaram uma ou outra obra em histórias de bang-bang, resultando quase sempre em clássicos premiados e populares: Fritz Lang (Os Conquistadores/Western Union, 1941), King Vidor (Duelo ao Sol/Duel in the Sun, 1946), Fred Zinnemann (Matar ou Morrer/High Noon, 1952), George Stevens (Os Brutos Também Amam/Shane, 1953), Douglas Sirk (Herança Sagrada/ Taza, Sono of Chochise, 1954), Edward Dmytryk (A Lança Partida/Broken Lance, 1954), Henry King (Estigma da Crueldade/The Bravados, 1958), William Wyler (Da Terra Nascem os Homens/The Big Country, 1958), John Huston (O Passado Não Perdoa/The Unforgiven, 1960), Richard Brooks (Os Profissionais/The Professionals, 1966), etc. Suspense de tirar o fôlego, Matar ou Morrer conta a história de um xerife (Gary Cooper) traído por sua própria comunidade e abandonado para enfrentar sozinho cruéis pistoleiros. Apenas a sua coragem moral o impede de fugir da cidade como um homem derrotado. Abaixo, cenas de Matar ou Morrer (1952), com Gary Cooper e Grace Kelly:

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No entanto, não podemos esquecer os craques diretores da galeria da fama do faroeste: Howard Hawks, William A. Wellmann, Raoul Walsh, John Farrow, Robert Aldrich, André De Toth, George Marshall, Delmer Daves, John Sturges, Budd Boetticher, Rudolph Maté e Sam Peckinpah. Entre os atores habituais do gênero, destacam-se Gary Cooper, James Stewart, John Wayne, Joel McCrea, Randolph Scott, Walter Brennan, Glenn Ford, Robert Mitchum, Gregory Peck, Harry Carey, Buck Jones, Tom Mix, Richard Widmark, Clint Eastwood e Audie Murphy.


Maureen O'Hara e Joel McCrea em "Buffalo Bill"
Na década de 60, o WESTERN atravessou uma fase de vacas magras nos Estados Unidos, não despertando o interesse dos produtores e tampouco do público. Mas na Itália, conhecidos como spaghetti-westerns, estavam sendo produzidos a todo vapor, numa abordagem mais contemporânea e operística. O italiano Sergio Leone, mestre absoluto desse revival, desconstruiu de certa forma o mito ao realizar excitantes tributos, como os inigualáveis Três Homens em Conflito/Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo (1966) e Era Uma Vez no Oeste/C’Era Una Volta Il West (1968). Com extraordinária trilha sonora de Ennio Morricone, este último resgatou os estilizados personagens do gênero: a prostituta bondosa, o pistoleiro enigmático, o bandido manhoso. Um universo de pistoleiros e bandidos violentamente dominados pelo fascínio do dinheiro fácil e da crueldade sem precedentes. Depois das obras-primas de Leone, surgiram outros expressivos filmes de faroeste: Meu Ódio Será sua Herança/The Wild Bunch (1969), Butch Cassidy/ Butch Cassidy and Sundance Kid (1969), Quando os Homens são Homens/ McCabe and Mrs. Miller (1971), Mais Forte Que a Vingança, Pat Garrett e Billy the Kid/Pat Garrett and Billy the Kid (1973), Duelo de Gigantes/The Missouri Breaks (1976), Silverado/idem (1985), Dança Com Lobos (1990), Wyatt Earp/idem (1994), Dead Man/idem (1995) e Bravura Indômita/True Grit (2010). Praticamente lançado por Leone, Clint Eastwood prestou uma homenagem ao gênero que o consagrou, em Os Imperdoáveis/The Unforgiven (1992), com Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris no elenco, rendendo-lhe o Oscar de Melhor Filme e DireçãoClint voltou ao bang-bang com novos olhos, não há mais glamour em matar, o homem da lei se comporta tão mal quanto o renegado que tenta se regenerar. Ele dedicou essa reflexão notável aos seus mentores Don Siegel e Sergio Leone. Uma elegia ao fim do velho Oeste nos filmes por eles retratado. Abaixo, cena de Os Imperdoáveis (1992):

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Fonte: 

http://ofalcaomaltes.blogspot.com/2011/03/era-uma-vez-no-western.html (do Blog do Antonio Nahud Júnior, em 17 de março de 2011)

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