sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

CHAPLIN (Parte 3) - Orlando F. Fassoni

Parte 1: http://rogercinema.blogspot.com/2010/11/chaplin-orlando-f-fassoni.html (25/11/2010)

Parte 2: http://rogercinema.blogspot.com/2010/12/chaplin-cont-orlando-f-fassoni.html (11/12/2010)

"O sujeitinho usa calças-balão, tem os pés chatos e a aparência do mais miserável e enxovalhado bastardo do mundo. Coça-se a todo instante, como se tivesse piolhos nos sovacos. Mas como é engraçado!"
Carlitos existia. Fez 35 filmes para a série Keystone, de Carlitos Repórter, o primeiro, até Seu Passado Pré-Histórico, o último. Foi escroque, trapalhão, vagabundo, bêbado descontrolado, suicida apaixonado, pensionista, namorado vingativo, travesti pela primeira vez (em A Busy Day, onde usou os vestidos da atriz Alice Davenport), falso conde, árbitro de boxe, marido de Mabel Normand em Dois Casais Encrencados onde, por pouco, ele não se casa com a atriz.
Na Essanay, para onde foi por 10 mil dólares só de luvas, Chaplin dirigiu e interpretou os 14 filmes que fez, trabalhando, até Luzes da Ribalta, de 1952, com o fotógrafo Rollie Totheroh, uma união profissional de 40 anos seguidos, coisa rara na história do cinema. Thoteroh morreu em 1967. Começou, ali, como candidato a um lugar num estúdio em Seu Novo Emprego, de 1915, passando por ébrio em Uma Noite Fora ou Carlitos se Diverte, a comédia onde estreou Edna Purviance, que seria, mais tarde, atriz inseparável de Carlitos. Em abril de 1915 ele realizou aquele que seria seu primeiro clássico: O Vagabundo (The Tramp). Até então não precisara de mais nada senão um parque, um policial e uma moça bonita para criar suas irresistíveis gags, sua pantomima notável, seu personagem esdrúxulo e mal costurado dentro das calças, das botinas, enfiado no chapéu roto. Mas, a partir de O Vagabundo ele insere na sua temática novos elementos pungentes e patéticos: a estrada vazia, o amor verdadeiro, a infelicidade estampada no sorriso de frustração do clown, nos gestos que antes serviam apenas para realçar o humor e agora já passavam a ser elementos integrados de um processo de representação que transmitia dor e levava as pessoas às lágrimas.
Entre 1915, data de seu primeiro filme clássico, até 1967, Chaplin fez 39 filmes. Alguns deles - oito pelo menos - são obras que qualquer estudioso, pesquisador ou historiador do cinema coloca, sem comentários, entre o que foi feito de melhor, mais alto e mais humano na comédia cinematográfica.
Elementos embrionários adquirem sua função definitiva na composição do personagem. Era o último estágio do clown e o primeiro filme em que ele se empenhava em narrar uma história segundo os modelos tradicionais, isto é, com início, meio e fim, começando pelo encontro de Carlitos com os ladrões que tentam roubar a garota, na estrada, o modo como ele a salva e é ferido, tratado e recuperado, até o aparecimento do noivo da moça e, para ele, a eterna frustração de ver-se preterido apesar de todo o heroísmo. Chaplin teve aí sua primeira chance em fazer da estrada e da paixão alguns dos elementos que estariam presentes em boa parte de suas obras posteriores. Inclusive o patético que levava as platéias não apenas a rir com seu personagem mas também a chorar com ele.


Abaixo: cena final do filme O Circo (1928), de Charlie Chaplin:

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Terminaria, a partir daí, o primitivismo na criação chapliniana. Já é acentuada a transformação que ele opera mo personagem nas fitas seguintes: Carlitos na Praia, cheio de frescura e poesia; Limpador de Vidraças, onde a correria típica da Keystone é mais rebuscada e a perseguição final atinge um ponto de rara perfeição artesanal; A Woman, tema de vaudeville que ele valorizou com um estupendo travesti, hoje clássico; O Banco, um dos filmes mais fortes da Essanay, com Carlitos no papel já bem desenvolvido do ser ingênuo que necessita de compreensão e amor em uma história que vários estudiosos viram como o embrião de Em Busca do Ouro; Carlitos Marinheiro, com seu show de malabarismo, um clássico de pantomima; Carlitos no Teatro, com Ben Turpin, reminiscência notável da fase de Fred Karno e do burlesco de sua época com Mack Sennett. Em 1915, ainda, Chaplin fez uma paródia da ópera Carmen, de Bizet. Transformou-a numa sátira selvagem e diretamente dirigida à adaptação feita por Cecil B. De Mille que estava sendo lançada na ocasião.

Abaixo: cenas do filme A Woman (1915), de Chaplin, com a música Pretty Woman como trila sonora:
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Carlitos Policial, ainda em 1915, foi o seu último filme na Essanay, estúdio que ele abandonou no fim daquele ano. E, tal como havia acontecido em Carmen, foi também montado por outros, com o uso de material deixado por Chaplin na companhia. Três anos mais tarde a Essanay lançou um filme intitulado Triple Trouble (Três Vezes em Apuros), feito de fragmentos de Limpador de Vidraças e outras comédias.
"O futuro, o futuro, o maravilhoso futuro. Aonde me conduziria? As perspectivas eram estonteantes. Como uma avalancha, dinheiro e êxito chegavam de forma sempre crescente. Tudo era perturbador, amedrontador, mas maravilhoso." Chaplin descreve assim o intermezzo entre a sua saída da Essanay para, sob contrato com a Mutual, fazer lá 12 filmes ao preço de 670 mil dólares. (Continua)

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